Somos chamados para a missão (DOM FERNANDO MASON)

25-10-2010 12:22

 

Somos chamados para a missão
Dom Fernando Mason

No mês de outubro, tradicionalmente dedicado às missões, a Igreja convida todos a refletirem sobre a responsabilidade evangelizadora pois, pelo Batismo, todos são missionários, chamados a anunciar, por palavras e atitudes, o Evangelho de Jesus Cristo, semeando no mundo os valores do Reino de Deus.

A missão ocupa um lugar central na razão de ser da Igreja. É interessante observar que as palavras “apóstolo” (do grego “apostéllein”) e “missionário” (do latim “mittere”) significam a mesma coisa: enviar. Por isso a Igreja define a si mesma como “apostólica”.

Os apóstolos foram enviados por Jesus Cristo aos quatro cantos do mundo para levar o Evangelho “a todas as nações” (Mt 28, 19), “até os confins da terra” (At 1, 8). Eles deram conta do recado, tanto que o testemunho “apostólico”, acolhido e transmitido, chegou até nós.

Caracteriza o missionário o fato de ser um “enviado”, isto é, ser alguém que atua em nome de uma incumbência recebida. A incumbência da missão evangélica vem de Jesus Cristo que se torna presente na palavra e na atuação de seus “missionários” (Lc 10, 6). Missionário é aquele que dá sua vida para servir o Evangelho. Jesus Cristo hoje envia por meio da Igreja “que é seu corpo” (Cl 1, 24).

A Igreja, ao longo de seu dois mil anos, viveu diversas epopeias missionárias, uma delas no século XV, que evangelizou nosso continente. Ao longo da história, milhares de sacerdotes, religiosos e leigos, enviados pela Igreja, deixaram tudo – pátria, parentes e bens – para serem apóstolos e missionários de Jesus Cristo em terras distantes.

Pessoalmente vivo essa experiência. Atendendo ao chamado divino, deixei meu país, a Itália, e vim para o Brasil, a serviço do Evangelho. Quando em junho de 1972 me despedi da comunidade paroquial de Loreggia, minha terra natal, o pároco Padre Antônio Serafim, um santo sacerdote, disse-me: “Lembre-se sempre de que você, ao partir, parte em nome de nós todos. Como Saulo e Barnabé partiram em nome da comunidade de Antioquia (At 13, 1-3), é a nossa comunidade que em você é missionária e católica.” E entregou-me seu crucifixo de missionário, que recebera das mãos do Papa Pio XI. Este crucifixo até hoje está comigo como recordação. Ele sempre me lembra que comigo está na missão toda a minha comunidade paroquial.

Também recordo minha comunidade religiosa de origem, dos franciscanos conventuais. Foi entre eles e por meio deles que comecei a “namorar” a missão “ad gentes” (para outras nações). Naqueles anos, a Província Santo Antônio, à qual eu pertencia, além de enviar missionários à Ásia e à África, estava iniciando missões na Argentina, Uruguai e Brasil. Havia um grande fervor missionário e um profundo senso de catolicidade. Os missionários que voltavam, a cada cinco anos, visitavam-nos nos seminários e nos contavam seus “feitos heróicos”, por trás dos quais pulsava grande alegria, entrega ao Evangelho e profundo amor ao povo de Deus e à ordem franciscana. Foram eles que esquentaram meu coração, tanto que posso dizer hoje, com gratidão, que sou feliz de ter sido frade missionário.

Como eu, muitos se lançam na missão “ad gentes”. Mas o Mês Missionário quer nos lembrar que todos são chamados a ser missionários, também no dia a dia, na nossa realidade. Faz parte de nossa alma de Igreja apostólica e de cristãos nos engajarmos na missão. Ai de nós se não evangelizarmos! E hoje, conforme pedia o Papa João Paulo II, somos chamados a uma nova evangelização, a tornar novo para nós próprios o Evangelho em que cremos, a testemunhá-lo com novo ânimo e oferecê-lo com novo ardor aos que não o conhecem ou dele se esqueceram.

Somos portadores de um bem precioso e de uma proposta de vida que abre para a esperança: o Evangelho. Se por nós, indivíduos ou comunidade, alguém abrir seu coração a Jesus Cristo, teremos conquistado uma vida para o bem (o que não é pouco!), teremos manifestado nossa fidelidade àquele que é Nosso Senhor (o que é tudo!) e teremos dado conta da incumbência de sermos testemunhas do amor, o que é grande e nobre!

O Senhor esteja sempre conosco! E o nosso testemunho a favor dele também!

Dom Fernando Mason é bispo da Diocese de Piracicaba